A partir do momento que eu disse pra minha professora da primeira série que eu gostava de ouvir Beethoven e não conhecia apenas Für Elise, as pessoas começaram a me por num pedestal inalcançável.
Mesmo sendo apenas uma criança, desde muito tempo, todos começaram a criar expectativas sobre mim.
Nunca fui uma garota prodígio ou com algum diferencial, pelo menos que eu tenha percebido, mas sempre
cultivaram uma imagem de "Garota diferente e inteligente". Isso pode parecer uma coisa boa, mas, com o tempo,
se tornou um dos maiores fardos da minha vida.
Acho que não preciso falar sobre como era frustrante tirar uma nota baixa e ouvir um "Eu tirei mais do que você, Stella!"
ou um "Até você, Stella?" quando eu fazia uma travessura como as outras crianças, não é mesmo?
E mesmo sendo apenas crianças, eu ouvi muitas vezes que alguém queria ser meu amigo, mas me achava legal demais pra isso.
Isso me tornou cada vez mais fria e fechada.
Não é como se eu tivesse me tornado um ser anti-social, mas sou mais centrada e menos ligada a parte sentimental,
pelo menos até eu ter certeza que aquela pessoa não aja de forma idiota comigo.
A vida continuou, eu cresci, entrei no ensino médio e essa situação não mudou. Alguns professores parecem ter medo de me
contrariar, outros me tratam de forma diferente e com mais cautela. As pedagogas evitam discutir e argumentar comigo e a
diretora não levanta a voz. A turma calava a boca quando eu, raramente, falava algo para todos, e sempre davam uma atenção
maior para minha opinião e ponto de vista. Colegas e até amigos têm medo de me abraçar e eu ficar brava. Uma até se
surpreendeu quando soube que eu gostava de um garoto.
Até entre amigos fora do colégio, vieram com a ideia de "A Téia é diva" sem eu agir de qualquer maneira diferente.
Desde que eu comecei a sair, mesmo que fosse para um curso, com calça jeans e camiseta, as pessoas me olhavam na rua.
Há quem diga que isso é questão de aura, mas sendo ou não, isso sempre me incomodou.
Esses dias eu entrei em contato com um velho amigo, na verdade, uma velha queda. Entre conversas nostálgicas e notícias sobre a vida ele lançou a seguinte frase:
"Eu gostava de você, mas pensei que nunca teria chance e, também, nunca tive coragem de chegar em você, então desisti"
Não adianta chorar sobre o leite derramado, mas isso me revoltou internamente, ainda mais por não ser a primeira vez que ouço isso.
Nem sempre ser alguém "inalcançável" é bom, nem sempre ser alguém que se destaca ou é diferente traz benefícios.
Por mais que meus amigos mais próximos tenham outra visão de mim e ajam de forma diferente, eu odeio como
as pessoas costumam criar expectativas. Isso acaba me machucando e as decepcionando.
Eu sei muito bem como é difícil expor seus sentimentos para alguém, mas não deixe um motivo idiota impedir de fazer isso.
Pessoas com pouca confiança e auto-estima me revoltam, por mais que isso não seja culpa delas.
E eu também gostaria de ser menos fechada, de ter menos cara de mau ou de antipática. Quem sabe eu conseguiria ter
mais amigos, ou pelo menos uma imagem menos negativa do que as pessoas normalmente têm sobre mim.
Eu vou estar mentindo se disser que não me divirto com essas situações algumas vezes, mas a maior parte do tempo,
isso acaba sendo algo solitário.