Há algum tempo, havia uma jovem de corpo e de alma, que sentia nojo da existência humana. Nojo de sua própria existência.
Afinal, poderia existir
algo mais imperfeito e corrupto do que a vida humana?
Preocupados com
coisas triviais e, constantemente, um passando por cima do outro. Mantendo em pé o
orgulho de uma perfeição e de um poder inexistente. Matando uns aos outros por
trás de máscaras que repudiam o sangue e a violência. Comandados pelo tempo, planejando
uma rebelião que nunca acontecerá. Perdendo seus sonhos pelo caminho, esquecendo-se
de sua essência e de quem foram um dia.
O ser humano acredita ser tão perfeito e poderoso. Eles podiam explodir montanhas, construir fortalezas, cruzar os mares e sobreviver ao ataque de grandes bestas. Ainda assim, eles precisavam, dia após dia, se concertar, reparar e fazer manutenção em seus corpos, caso contrário, eles apodreceriam, adoeceriam, falhariam e morreriam. Eles poderiam vencer todas as pragas, menos a Morte.
Tomada por um ódio que crescia e por uma vaidade que florescia, a jovem cometeu o erro de almejar a imortalidade e a beleza eterna.
Assim, ela poderia manter a única coisa pura em seu corpo: sua face angelical. A face que encantava muitos, que a abençoava e a amaldiçoava ao mesmo tempo. A face que trazia oportunidades para sua vida e corrompia seu corpo e sua alma. A face que lhe dava esperanças e arrancava-lhe seus sonhos.
Jogada em um obscuro mundo, sem ninguém para fazer-lhe companhia além daquilo que seu corpo e seu rosto podiam comprar, ela se afogava no desespero a cada dia que passava.
Ela perdia-se entre lençóis com aqueles que a visitavam, em troca de dinheiro, e entre devaneios sobre coisas que ela sempre sonhou em ter, almejando possibilidades que eram demais para apenas uma vida. Demais para a sua vida.
Em uma fria noite estrelada, durante o outono, enquanto vagava pelas ruas escuras, sem propósito nem esperanças, um homem a parou.
Seja qual for sua proposta, eu recusarei, ela pensou, esperando um momento de paz naquela noite. Ela estava cansada de viver daquele modo. Ela estava cansada de viver. Se aquele estranho portasse uma arma, ela aceitaria com prazer o convite para dançar com a morte.
Quando o homem tirou seu chapéu, ela percebeu que ele tinha uma beleza tão incrível quanto a dela. Seus olhos vibrantes a enfeitiçaram e ela perdeu sua noção por um momento.
Sem tocá-la ou mostrar ter qualquer outra intenção, o jovem estendeu-lhe um botão de rosa, de um puro branco. Seu cabo tinha pequenos espinhos, suas folhas eram incrivelmente perfeitas e verdes e as pétalas pareciam macias e suaves.
Pela primeira vez em muito tempo ela havia achado algo e alguém que a fascinava do mesmo modo que seu reflexo no espelho.
Ainda em seu transe, ela involuntariamente estendeu a mão para pegar a flor, alcançando a rosa e segurando entre seus dedos, sem tocar no homem.
Ele sorriu, colocou novamente seu chapéu e continuou a andar, pelo caminho que a jovem veio.
Intrigada com tal presença ela se virou e tentou alcançá-lo, querendo saber sua identidade.
"Quem é você?" ela perguntou para a figura que se distanciava cada vez mais.
O homem continuou andando, mas levantou seu chapéu "Eu a verei em breve" a moça pode ouvir, como se ele estivesse falando próximo ao seu ouvido.
Por algum motivo, ela simplesmente continuou caminhando para casa, com a rosa assegurando-a que ela o veria novamente.
Algum tempo se passou, a primavera havia chegado e a jovem começou a notar que sua beleza se acentuava cada vez mais. Prometendo respeitar mais seu corpo, ela havia parado de se vender por dinheiro. Ela tinha atingido o auge de sua juventude, porém sabia que uma hora aquilo acabaria. A jovem estava ciente de que sua beleza não era eterna e que aquela sede de viver, que aquele homem havia despertado nela, naquela noite de outono, uma hora também cessaria. O tempo havia passado e a promessa dele ainda não havia sido cumprida. A única coisa que a impedia de pensar que aquilo tinha sido um sonho, era a rosa, que continuava exatamente do modo que ele havia lhe dado. Todas as flores das redondezas haviam desabrochado, e aquelas com uma vida efêmera já morriam aos poucos, porém a rosa continuava intacta.
No meio da estação, um estranho e sombrio homem bateu na porta de sua casa na periferia da cidade. Vestindo trajes negros, mas extremamente finos, ele trazia um convite. Ele falou para ela que seu mestre queria vê-la e que ela encontraria todas as explicações no papel dentro do envelope.
Por um momento, a jovem se sentiu constrangida por nunca ter aprendido a ler e não saber o que fazer naquela situação, mas algo no convite chamou sua atenção. Haviam rosas, desde seu selo, até a moldura do papel. Só poderia ser o homem que a parou aquele dia. Ela precisava saber quem ele era e tinha a sensação de que ele poderia causar uma grande mudança em sua vida.
Após pegar a rosa, ela permitiu que o criado a conduzisse até uma antiga construção.
A mansão tinha um grande jardim, com todos os tipos de flores que ela jamais havia imaginado que existiam. Próximas da passagem, havia uma infinidade de rosas vermelhas, acompanhando o caminho até a porta da mansão. A decoração no concreto ao redor da porta e das janelas era absurdamente detalhada, feita por verdadeiros artistas.
O cenário parecia parte dos sonhos da jovem, cheio de luxo e requinte. O interior da mansão a surpreendeu mais ainda, com a riqueza e refino presente nos móveis e na decoração. Peças de ouro e madeira nobre decoravam as inúmeras salas e corredores do lugar. Quanto mais ela era guiada pelo estranho homem, para o coração da construção, mais ela se sentia encantada.
Após percorrer por diversos cômodos, o homem a deixou sozinha, em frente a uma grande porta de madeira, entalhada com rosas.
Por um momento, o medo tomou conta da jovem e parecia que ela não deveria estar ali. Seu coração batia de forma acelerada e suas mãos e pernas tremiam. A luz parecia diminuir, as sombras caíam sobre ela e um frio impossível para a época atingiu seu corpo. Quando ela estava quase entrando em desespero, as portas se abriram.
No quarto, quase totalmente vazio, haviam duas poltronas na frente de uma lareira acesa. O fogo queimava fortemente, lançando faíscas para fora, em um momento ou outro, atingindo o chão de madeira negra e as paredes cor de sangue. A jovem reconheceu o homem que lhe deu a rosa sentado em uma das poltronas, apesar de ele estar virado para a lareira e com parte seu rosto deformado pela luz do fogo.
"Não tenha medo" ele disse, fazendo sinal para que ela se aproximasse e ordenou "Sente-se."
Ainda com receio, ela caminhou lentamente até a poltrona vazia, quase de frente para o homem. Ela o observou novamente, sem saber como reagir. O jovem na sua frente era extremamente belo, com olhos de um dourado tão vibrante que poderia ser amarelo. Ele tinha a pele pálida e cabelos escuros, cuidadosamente presos com uma fita escarlate. Sua roupa era extremamente luxuosa, com bordados feitos a mão e detalhes caros demais para o conhecimento dela.
Ao notar que ela estava com a rosa nas mãos, ele abriu um sorriso extremamente encantador e fez novamente um gesto para que ela se sentasse. Com seus músculos rígidos, ela obedeceu ao comando e se sentou extremamente ereta, apoiando a flor em seu colo.
"Você é muito parecida comigo" ele estreitou os olhos, repousando sua cabeça sobre sua mão. Seu cotovelo repousava no braço da poltrona e ele parecia extremamente relaxado. "Você tem a beleza de um anjo, com o corpo pecador de um demônio".
Uma série de dúvidas passava pela cabeça da jovem e ela se sentia cada vez mais assustada pelo fato dele parecer conhecê-la. "Quem é você?" ela repetiu a pergunta de tanto tempo atrás "O que você quer de mim?"
O homem voltou a sorrir, parecendo extasiado pela reação da jovem. "Você deve responder essas perguntas para mim primeiro. Após sua resposta definitiva, eu poderei revelar quem eu sou. Agora me diga: Quem é você? O que você quer da sua vida? Você realmente é quem você é? Você tem a vida que gostaria de ter?"
Ela podia notar que ele já sabia todas as respostas para essa pergunta. Ele não havia feito o convite por acaso ou por causa da beleza dela. Extremamente confusa, ela se manteve em silêncio, encarando o homem na sua frente.
"Eu tenho te observado há muito tempo" ele explicou. "Vejo em seus olhos a ânsia que você tem por uma vida que jamais será do seu alcance e vejo em seu corpo marcas de um mundo que não foi feito para você. Eu a trouxe aqui para fazer uma proposta. Uma troca". Ele permanecia encarando a moça com seus intensos olhos, parecendo enxergar algo além do que poderia ser visto "Eu lhe darei qualquer coisa em troca se você concordar com um pedido meu"
A jovem ponderou por um momento, tentando prever as intenções daquele homem. "Eu não faço mais isso" ela respondeu "Eu prometi a mim mesma que jamais voltaria a vender meu próprio corpo."
Uma gargalhada saiu dos lábios do homem, que parecia se divertir com a situação. Ela ficou ainda mais confusa com sua reação e o olhava com curiosidade.
"Eu não quero seu corpo. Eu quero sua alma" ele respondeu. Seu tom de voz era normal, impedindo que ela decifrasse se era uma piada ou não.
Seu pedido não a surpreendeu. Na verdade, o que a surpreendeu for por ele preferir sua alma ao seu corpo. "Você me daria qualquer coisa por minha alma cinzenta e perdida?" ela perguntou para ele.
"Qualquer coisa" os olhos dele pareceram brilhar mais ainda.
Novamente ela se perdeu em pensamentos, indo a fundo em suas memórias do que aconteceu e deixou de acontecer em sua vida, procurando por seus mais profundos desejos. A família que ela nunca teve? Os amores que ela jamais conseguiu viver? A situação financeira e social favorável? A vida digna e limpa, sem precisar sacrificar seus sonhos?
Enquanto procurava por algo, seus olhos pousaram sobre a rosa em seu colo. A bela e imutável rosa branca. Ao olhar para a flor, algo acendeu dentro de si. “Eu quero ser como essa rosa” ela disse com convicção
“Imutável. Eternamente jovem, eternamente bela.”
Sangue é a chave da imortalidade.
“Essa rosa não é uma rosa comum, caso contrário, ela morreria normalmente. Ela é uma rosa artificial, imutável e eternamente bela como você desejou ser. Rosas artificiais não têm perfume. Elas nunca desabrocharão
e jamais darão continuidade a sua linhagem” ele envolveu a mulher em seus braços pronto para levá-la. "Sua alma não é o único preço quando se faz um acordo com o Caído."
Naquela noite, o corpo de uma jovem foi encontrado na mansão. Sem vestígios do culpado por seu assassinato, apenas foi encontrada a arma do crime e duas rosas vermelhas próximas do corpo da vítima.

Parabéns! Você é uma excelente escritora.
ResponderExcluirAbraços!
Professora Magda - Foz do Iguaçu