Um espaço para auto-reflexão, mimimis adolescentes e falta do que fazer

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A alegria do palhaço é ver o circo pegar fogo

   
     Em meio a escuridão, uma luz brilhava, chamando toda a atenção para um único ponto da arena. Um homem, cruelmente preso, estava sob os holofotes, com uma expressão exageradamente feliz.
     Não, ele não era mais um homem. Sua metamorfose havia sido completa e agora ele estava aprisionado debaixo de todas aquelas cores e olhares, repetindo sua doce tortura diária. Aquele era o lugar de uma aberração e apenas daquele modo ele poderia ser aceito.
     Todos acreditavam estar prestigiando um grande espetáculo, com a alegria em seus olhos, se deliciando com a desgraça de um pobre servo do riso, sem ter nenhuma noção do que realmente estava acontecendo.
     Como eles não poderiam ver as sombras que andavam pelo picadeiro, sob seus pés e sobre suas cabeças? Era assim tão difícil enxergar os demônios que circulavam entre todos e sussurravam maldições e ordens?
     Sendo o único capaz de ouvi-los, ele estava eternamente preso naquele pesadelo que chegava durante as noites. Não importava a cidade ou o país. Para onde ele fosse arrastado, ele seria perseguido por aquela colorida tortura, forçando-o a fazer tudo novamente.
     Dia após dia, uma dose daquela droga era injetada em seu corpo. Ele se tornava dependente da sensação de euforia e do frenesi, das luzes e das cores que dançavam em sua visão, e do barulho e da música que tocava continuamente em seus ouvidos. Mesmo sentindo-se a ponto de explodir, seu corpo permanecia ali, incansavelmente agindo, como se ele não fosse mais dono de seus próprios movimentos.
     Em um momento ou outro, ele se feria ou feria um de seus pobres companheiros. Mesmo com toda a dor e melancolia, a multidão não conseguia perceber o que acontecia ali. Risos abafavam gemidos, lenços encobriam feridas e a sensação de desespero era ultrapassada pela energia que todos transmitiam.
     Era tão bom ver seus ignorantes rostos sorridentes. Aquilo era a única coisa que o mantinha em pé, mesmo que seu corpo não aguentasse mais. Ele amava a insanidade de toda aquela situação, o martírio de seu corpo e a corrupção de sua alma. Mas uma hora aquilo deveria acabar, não é mesmo?
     Não resta muito tempo, as vozes sussurravam em seus ouvidos e as sombras empurravam seu corpo e mostravam-lhe a verdade. Ele não poderia suportar por mais tempo e, caso não fosse libertado, seu espírito se perderia naquela arena. Sua única opção era procurar e alcançar a luz, mesmo sabendo que havia um preço a ser pago por tal luz.
     Ah! A luz! Sim! Ela era tão bonita! Ela envolvia o corpo daqueles que a encontravam, confortava com seu calor e os transformavam. A luz os devolvia para sua origem e trazia-lhes paz. Era dessa luz que ele precisava e estava prestes a colocar seu iluminado plano em prática.
     Enquanto ouvia os risos serem substituídos por terror, o palhaço viu pela última vez o circo pegar fogo.


     No dia seguinte, estampada nos jornais estava a terrível história da tragédia de um circo que pegou fogo, tendo como o único sobrevivente um palhaço, que foi visto fugindo da cidade com a insanidade estampada sobre sua maquiagem colorida.

   


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