Um espaço para auto-reflexão, mimimis adolescentes e falta do que fazer

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

A Morte nunca Mente

     A manhã de segunda-feira havia começado de forma normal. Enquanto ouvia as notícias matinais pelo noticiário local, uma jovem prendia seus cabelos ruivos em um coque, preparando-se para mais um dia de trabalho.
     Na estação de trem, ela se encontrou com sua melhor amiga, loira, dois anos mais velha do que ela e menos bem-humorada. Elas haviam se formado juntas e hoje trabalhavam no mesmo hospital, como enfermeiras.
     Após chegarem ao destino do trem, andando as quadras que faltavam para alcançarem seu local de trabalho, elas começaram a conversar sobre suas expectativas para o ano que estava começando. A loira planejava juntar dinheiro para viajar pelo exterior, enquanto a ruiva apenas esperava ter sorte em sua vida amorosa. Uma era a razão, a outra o coração, como elas costumavam brincar. Uma impedia que a outra fizesse besteira por causa do exagero de uma dessas partes e, provavelmente, era por isso que ambas se davam tão bem.
     Enquanto caminhavam, uma velha mendiga sorridentemente as parou, se oferecendo para ler seu futuro em uma bola de vidro que ela carregava em suas mãos. Por sempre ter sido fascinada por assuntos místicos, a jovem ruiva concordou rapidamente, porem sua amiga a impediu por um momento.
– Esse tipo de coisa não existe! – ela alertou – É tudo uma farsa para conseguir nosso dinheiro.
     Desde que se conheciam, sua amiga sempre fora extremamente cética, sem dar qualquer chance para aquilo que ela não pudesse ter provas. Mas, dessa vez, a mais jovem não cederia e não abandonaria seu lado sentimental e esperançoso.
– Se você não acredita, o problema é seu – respondeu a ruiva. Então, ela se virou para a velha e sorriu amigavelmente – A senhora poderia me falar sobre minha alma gêmea?
     A jovem loira soltou um sorriso cheio de sarcasmo e revirou os olhos, parcialmente irritada com a crença e inocência de sua amiga. Mesmo assim, a ruiva a ignorou e esperou ansiosamente enquanto a velha mulher observava sua suposta bola de cristal.
– Eu vejo um jovem de olhos verdes – a mulher disse após um momento, parecendo concentrada em sua suposta visão. – Ou talvez castanhos. Seus cabelos são negros como a noite – ela parou por um momento, analisando o que via e mostrando confusão em sua expressão.
– Poxa, isso não parece tão ruim – a loira sussurrou para a amiga, com um sorriso malicioso nos lábios – Se você não o quiser, eu quero.
– Cale a boca – a outra jovem respondeu em um tom baixo – Deixe-me ouvir o resto.
     A vidente continuava concentrada, uma hora ou outra mudando sua expressão para surpresa, então confusão.
– Seu primeiro e último encontro será na rua e devo adverti-la que vocês não serão capazes de ficar juntos nessa vida. – a mulher profetizou, desta vez, tomando total atenção das duas moças em sua frente – A morte irá dirigir sobre seus destinos até que ambos renasçam.
     As duas jovens permaneceram encarando a mulher, esperando por algo mais, mas isso foi tudo que a velha disse á elas.
– Isso é ridículo! – a jovem loira protestou, irritada com as palavras da mulher. Ela sabia desde o começo que era uma perda de tempo e dinheiro ouvir previsões inventadas por uma velha louca – Eu te disse que era uma perda de tempo! Ela só disse asneira – ela se virou para a sua amiga ruiva, esperando que ela se pronunciasse.
     A jovem pareceu desapontada por um momento. Sendo uma romântica incorrigível, uma leve frustração a tomou, quem sabe por causa da previsão, ou talvez por causa da pequena dúvida que sua amiga havia plantado em sua cabeça sobre a veracidade do que aquela mulher havia dito. Ela pegou algumas notas de valor pequeno de seu bolso e colocou na mão da velha, dando-lhe um sorriso amarelo de desculpas e desapontamento.
     Durante o resto do caminho, e quando chegaram ao hospital, ambas não falaram mais sobre o episódio que havia acabado de acontecer. Seguindo os procedimentos padrões, enquanto ia de quarto em quarto, cuidando dos pacientes, a jovem ruiva percebeu que havia um homem sentado em um banco no fim do corredor, que parecia observá-la.
     Pensando que era apenas mais um acompanhante abatido, ela não ligou para a presença dele e continuou com seus afazeres, até o momento que ela percebeu que o homem não estava mais sentado no banco. Novamente, ela não deu muita importância para tal acontecimento.
     No final do expediente, o último paciente que ela foi checar era um senhor que havia sofrido um acidente de carro, estando se recuperando de várias contusões e fraturas. Ele raramente recebia visitas, mas dessa vez, havia alguém o acompanhando.
     O homem do corredor, um rapaz no máximo cinco anos mais velho do que ela, estava sentado em uma cadeira ao lado da cama do senhor acidentado, com uma expressão angustiada e preocupada. Quando a enfermeira se aproximou, ela se espantou por um momento, com diversas coisas passando por sua cabeça.
     O rapaz tinha heterocromia, com um olho verde e o outro castanho. Seu olhar, mesmo abalado por lágrimas que não caíam, era profundo e misterioso. Ao perceber a presença da jovem, ele passou a mão pelo cabelo castanho escuro e secou seus olhos úmidos, tentando se recompor. Ele olhou para a mulher com curiosidade, parecendo intrigado com algo.
     Ela, da mesma forma, começou a repassar tudo o que a vidente havia lhe dito durante a manhã, encaixando as peças do quebra cabeça que estava na sua frente. Seu coração batia de forma acelerada e uma pontada de esperança surgiu dentro dela, fazendo-a esquecer de qualquer parte ruim da previsão. Era ele?
     A partir daquele dia, o rapaz foi visitar o senhor, que ela descobriu ser o pai dele, todos os dias, até o momento que ele teve alta. Foi nessa ocasião que então ele finalmente chamou a jovem e simpática enfermeira para sair.
     Quanto mais o tempo passava, mais ela descobria coisas em comum entre eles. Mesmos gostos, mesmos hábitos e mesmos ideais. Eles não completavam um ao outro: eles eram o espelho do outro.
     Após quase dois anos, eles noivaram e estavam se preparando para uma nova fase de suas vidas, quando finalmente aconteceu.
     Em uma noite fria, eles estavam voltando de um restaurante, passeando pela rua quase deserta e apreciando as luzes de natal.  Ele a mantinha em seus braços, aquecida com seu casaco que envolvia os dois de uma só vez. Ambos riam a brincavam, falando sobre os planos para seu casamento e sua vida como marido e mulher, até que ouviram um grito.
     Em um beco, uma quadra de distância de onde eles estavam, uma senhora era agredida por um homem transtornado, aparentemente bêbado. Mesmo após pegar os pertences da senhora, o homem continuou a apertar fortemente seu braço e lançar ao ar palavras de insulto.
– Temos que ajudá-la – disse a moça, ao se aproximarem do lugar.
     Seu noivo apenas assentiu e caminhou em direção ao homem, agarrando-o pelo ombro e o afastando da velha mulher.
– O que você está fazendo? – o rapaz perguntou – Deixe-a em paz antes que eu chame a polícia!
– Você não tem nada a ver com isso – o bêbado respondeu, com a língua um pouco enrolada – Esse assunto é comigo e a velha bruxa. Se você ficar no meio, vai acabar se dando mal.
     O homem continuou entre o bêbado e a velha, pronto para lutar se fosse preciso. Porém, o homem embriagado sacou uma arma e, com uma pontaria quase impossível para o seu estado, ele disparou um tiro contra o peito do cara que o atrapalhava. Depois de perceber o que tinha feito, ele saiu cambaleando, sumindo por uma das ruas da redondeza.
     Desesperada, a mulher ruiva foi até o corpo de seu noivo, estirado no chão. Aquilo não poderia ser verdade. Não. Seu amado. Seu melhor amigo. A pessoa que ela havia escolhido passar o resto de sua vida ao seu lado, estava em seus braços, á beira da morte. Tudo acontecera tão rapidamente que ela mal conseguia raciocinar direito. Ela olhou para a velha, procurando ajuda.
– Faça alguma coisa! – ela disse histericamente – Chame uma ambulância, vá procurar ajuda! Por favor, nos ajude!
     A velha olhou para a mulher em sua frente com uma mistura de ternura e pena em sua face. Ela suspirou e sorriu gentilmente.
– Não há mais nada o que fazer, minha querida. Ele se foi. O destino está lentamente se cumprindo.
     Após ouvir as palavras daquela senhora, a manhã de tempos atrás voltou para a mente da mulher. “Vocês não serão capazes de ficar juntos nessa vida” ela se lembrou de ouvir a mendiga dizer enquanto previa seu futuro. Ela, por um momento, havia rezado para que aquilo realmente fosse uma invenção e, após certo tempo, ela se esqueceu, apesar de ainda acreditar que ele era seu predestinado.
     Olhando atentamente para a mulher, ela reconheceu a vidente que havia ditado seu destino, agora, com boas roupas e uma aparência melhor.
– Você planejou tudo isso, não é? – a moça perguntou para a vidente, apertando seus dentes e se segurando para não atacá-la – Isso era parte de seu plano ou maldição, não é mesmo?!
     A velha pegou sua bolsa que o bêbado havia deixado cair, e continuou sorrindo, com a mesma expressão em sua face.
– Eu não tenho o poder de escrever o destino, criança. Eu apenas o vejo ser cumprido e faço meu trabalho – ela explicou, começando a caminhar para fora do beco – Espero que seu espírito possa se conformar e encontrar paz – foram as últimas palavras que a velha disse para a mulher, antes de desaparecer nas sombras da noite.

     Depois de três meses, a moça sentia-se esgotada. Além de perdeu seu grande amor, ela enfrentou uma série de julgamentos e interrogatórios, enquanto a polícia procurava o culpado. Naquela tarde, ela havia voltado da delegacia, sem resultados animadores. Era bem provável que jamais capturassem o homem que havia matado seu noivo e nem mesmo a velha pode ser localizada. Alguns já levantavam a hipótese da moça ter enlouquecido com a morte de seu amado e inventado parte da história.
     Seus olhos pareciam mais pesados do que o normal, sua visão embaçava e seu corpo estava extremamente dolorido. Quando ela estava a algumas quadras de casa, um dos cruzamentos se tornou fatal para seu corpo fragilizado. Sem prestar a atenção, ela estava andando automaticamente, enquanto sua mente se perdia em lembranças e em ilusões do rosto da senhora que havia previsto seu futuro.
     Quando a moça percebeu a caminhonete preta se aproximando, já era tarde demais. Ela foi arremessada a metros de distância, e seu corpo permaneceu estirado no chão, da mesma forma que o corpo do seu noivo.
     Todos que estavam na rua viram com pavor a cena que aconteceu, se mobilizando para fazer algo. Um dos responsáveis pelo acidente fez a mesma coisa.
     Do carro saiu um homem com olhos avelã¹ e cabelos pretos, com uma expressão alerta e angustiada. Ele se aproximou do corpo da jovem, estirado no chão, com sangue saindo de uma abertura no topo de sua cabeça. Apesar das circunstâncias, seu rosto quase sereno pareceu, de certa forma, familiar para o rapaz. Inconscientemente, ele tocou sua face, quase ternamente, então deslizou seus dedos até seu pescoço, procurando pulsação. Nada.

     Nos dias que se seguiram, ele deu todo o apoio que pode para a família da mulher atropelada, assumindo as despesas com seu enterro. Daquele modo, talvez, uma parte da culpa que ele sentia em seus ombros seria extinta.
     Durante o enterro, enquanto observava de longe o caixão ser coberto de terra, o homem foi abordado por uma velha mulher, extremamente pálida, sob a luz daquela tarde cinzenta, e toda vestida de preto, com um simpático sorriso no rosto, fora daquele contexto melancólico.
– Não se preocupe – ela disse para ele, apoiando uma mão em seu ombro – Você a encontrará em outra vida. Eu cuidarei dela até lá.
     Após dizer isso, a velha foi embora, sem esperar qualquer reação por parte do homem.  Dispersas gotas de chuva começaram a cair do céu, molhando aos poucos as lápides cinzentas e a grama. Uma delas caiu no olho do rapaz, embaçando sua visão e fazendo-o limpar seus olhos com as mãos.
     Quando ele olhou novamente, a velha já havia desaparecido, levando embora seu sorriso e espalhando a sensação da morte por todo o local novamente.





¹Lembrando que olhos cor de avelã tem uma coloração que muda de acordo com a iluminação local, variando entre castanho e verde.

Obs: Ainda não arranjei um título decente para esse conto, quando eu encontrar um, irei editar essa postagem. 
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