A manhã de segunda-feira havia
começado de forma normal. Enquanto ouvia as notícias matinais pelo noticiário
local, uma jovem prendia seus cabelos ruivos em um coque, preparando-se para
mais um dia de trabalho.
Na estação de trem, ela se encontrou com
sua melhor amiga, loira, dois anos mais velha do que ela e menos bem-humorada.
Elas haviam se formado juntas e hoje trabalhavam no mesmo hospital, como enfermeiras.
Após chegarem ao destino do trem, andando
as quadras que faltavam para alcançarem seu local de trabalho, elas começaram a
conversar sobre suas expectativas para o ano que estava começando. A loira
planejava juntar dinheiro para viajar pelo exterior, enquanto a ruiva apenas
esperava ter sorte em sua vida amorosa. Uma era a razão, a outra o coração,
como elas costumavam brincar. Uma impedia que a outra fizesse besteira por
causa do exagero de uma dessas partes e, provavelmente, era por isso que ambas
se davam tão bem.
Enquanto caminhavam, uma velha mendiga
sorridentemente as parou, se oferecendo para ler seu futuro em uma bola de
vidro que ela carregava em suas mãos. Por sempre ter sido fascinada por
assuntos místicos, a jovem ruiva concordou rapidamente, porem sua amiga a
impediu por um momento.
– Esse tipo
de coisa não existe! – ela alertou – É tudo uma farsa para conseguir nosso
dinheiro.
Desde que se conheciam, sua amiga sempre
fora extremamente cética, sem dar qualquer chance para aquilo que ela não
pudesse ter provas. Mas, dessa vez, a mais jovem não cederia e não abandonaria
seu lado sentimental e esperançoso.
– Se você não
acredita, o problema é seu – respondeu a ruiva. Então, ela se virou para a
velha e sorriu amigavelmente – A senhora poderia me falar sobre minha alma
gêmea?
A jovem loira soltou um sorriso cheio de
sarcasmo e revirou os olhos, parcialmente irritada com a crença e inocência de
sua amiga. Mesmo assim, a ruiva a ignorou e esperou ansiosamente enquanto a
velha mulher observava sua suposta bola de cristal.
– Eu vejo um
jovem de olhos verdes – a mulher disse após um momento, parecendo concentrada
em sua suposta visão. – Ou talvez castanhos. Seus cabelos são negros como a
noite – ela parou por um momento, analisando o que via e mostrando confusão em
sua expressão.
– Poxa, isso
não parece tão ruim – a loira sussurrou para a amiga, com um sorriso malicioso
nos lábios – Se você não o quiser, eu quero.
– Cale a boca
– a outra jovem respondeu em um tom baixo – Deixe-me ouvir o resto.
A
vidente continuava concentrada, uma hora ou outra mudando sua expressão para
surpresa, então confusão.
– Seu
primeiro e último encontro será na rua e devo adverti-la que vocês não serão
capazes de ficar juntos nessa vida. – a mulher profetizou, desta vez, tomando
total atenção das duas moças em sua frente – A morte irá dirigir sobre seus
destinos até que ambos renasçam.
As duas jovens permaneceram encarando a
mulher, esperando por algo mais, mas isso foi tudo que a velha disse á elas.
– Isso é
ridículo! – a jovem loira protestou, irritada com as palavras da mulher. Ela
sabia desde o começo que era uma perda de tempo e dinheiro ouvir previsões
inventadas por uma velha louca – Eu te disse que era uma perda de tempo! Ela só
disse asneira – ela se virou para a sua amiga ruiva, esperando que ela se
pronunciasse.
A jovem pareceu desapontada por um
momento. Sendo uma romântica incorrigível, uma leve frustração a tomou, quem
sabe por causa da previsão, ou talvez por causa da pequena dúvida que sua amiga
havia plantado em sua cabeça sobre a veracidade do que aquela mulher havia
dito. Ela pegou algumas notas de valor pequeno de seu bolso e colocou na mão da
velha, dando-lhe um sorriso amarelo de desculpas e desapontamento.
Durante o resto do caminho, e quando
chegaram ao hospital, ambas não falaram mais sobre o episódio que havia acabado
de acontecer. Seguindo os procedimentos padrões, enquanto ia de quarto em
quarto, cuidando dos pacientes, a jovem ruiva percebeu que havia um homem
sentado em um banco no fim do corredor, que parecia observá-la.
Pensando que era apenas mais um
acompanhante abatido, ela não ligou para a presença dele e continuou com seus
afazeres, até o momento que ela percebeu que o homem não estava mais sentado no
banco. Novamente, ela não deu muita importância para tal acontecimento.
No final do expediente, o último paciente
que ela foi checar era um senhor que havia sofrido um acidente de carro,
estando se recuperando de várias contusões e fraturas. Ele raramente recebia
visitas, mas dessa vez, havia alguém o acompanhando.
O homem do corredor, um rapaz no máximo
cinco anos mais velho do que ela, estava sentado em uma cadeira ao lado da cama
do senhor acidentado, com uma expressão angustiada e preocupada. Quando a
enfermeira se aproximou, ela se espantou por um momento, com diversas coisas
passando por sua cabeça.
O rapaz tinha heterocromia, com um olho
verde e o outro castanho. Seu olhar, mesmo abalado por lágrimas que não caíam,
era profundo e misterioso. Ao perceber a presença da jovem, ele passou a mão
pelo cabelo castanho escuro e secou seus olhos úmidos, tentando se recompor.
Ele olhou para a mulher com curiosidade, parecendo intrigado com algo.
Ela, da mesma forma, começou a repassar
tudo o que a vidente havia lhe dito durante a manhã, encaixando as peças do
quebra cabeça que estava na sua frente. Seu coração batia de forma acelerada e
uma pontada de esperança surgiu dentro dela, fazendo-a esquecer de qualquer
parte ruim da previsão. Era ele?
A partir daquele dia, o rapaz foi visitar
o senhor, que ela descobriu ser o pai dele, todos os dias, até o momento que
ele teve alta. Foi nessa ocasião que então ele finalmente chamou a jovem e
simpática enfermeira para sair.
Quanto mais o tempo passava, mais ela
descobria coisas em comum entre eles. Mesmos gostos, mesmos hábitos e mesmos
ideais. Eles não completavam um ao outro: eles eram o espelho do outro.
Após quase dois anos, eles noivaram e
estavam se preparando para uma nova fase de suas vidas, quando finalmente
aconteceu.
Em uma noite fria, eles estavam voltando
de um restaurante, passeando pela rua quase deserta e apreciando as luzes de
natal. Ele a mantinha em seus braços,
aquecida com seu casaco que envolvia os dois de uma só vez. Ambos riam a
brincavam, falando sobre os planos para seu casamento e sua vida como marido e
mulher, até que ouviram um grito.
Em um beco, uma quadra de distância de
onde eles estavam, uma senhora era agredida por um homem transtornado,
aparentemente bêbado. Mesmo após pegar os pertences da senhora, o homem
continuou a apertar fortemente seu braço e lançar ao ar palavras de insulto.
– Temos que
ajudá-la – disse a moça, ao se aproximarem do lugar.
Seu noivo apenas assentiu e caminhou em
direção ao homem, agarrando-o pelo ombro e o afastando da velha mulher.
– O que você
está fazendo? – o rapaz perguntou – Deixe-a em paz antes que eu chame a
polícia!
– Você não tem
nada a ver com isso – o bêbado respondeu, com a língua um pouco enrolada – Esse
assunto é comigo e a velha bruxa. Se você ficar no meio, vai acabar se dando
mal.
O homem continuou entre o bêbado e a
velha, pronto para lutar se fosse preciso. Porém, o homem embriagado sacou uma
arma e, com uma pontaria quase impossível para o seu estado, ele disparou um
tiro contra o peito do cara que o atrapalhava. Depois de perceber o que tinha
feito, ele saiu cambaleando, sumindo por uma das ruas da redondeza.
Desesperada, a mulher ruiva foi até o
corpo de seu noivo, estirado no chão. Aquilo não poderia ser verdade. Não. Seu
amado. Seu melhor amigo. A pessoa que ela havia escolhido passar o resto de sua vida ao seu lado, estava em seus
braços, á beira da morte. Tudo acontecera tão rapidamente que ela mal conseguia
raciocinar direito. Ela olhou para a velha, procurando ajuda.
– Faça alguma
coisa! – ela disse histericamente – Chame uma ambulância, vá procurar ajuda!
Por favor, nos ajude!
A velha olhou para a mulher em sua frente
com uma mistura de ternura e pena em sua face. Ela suspirou e sorriu gentilmente.
– Não há mais
nada o que fazer, minha querida. Ele se foi. O destino está lentamente se
cumprindo.
Após ouvir as palavras daquela senhora, a
manhã de tempos atrás voltou para a mente da mulher. “Vocês não serão capazes
de ficar juntos nessa vida” ela se lembrou de ouvir a mendiga dizer enquanto
previa seu futuro. Ela, por um momento, havia rezado para que aquilo realmente
fosse uma invenção e, após certo tempo, ela se esqueceu, apesar de ainda
acreditar que ele era seu predestinado.
Olhando atentamente para a mulher, ela
reconheceu a vidente que havia ditado seu destino, agora, com boas roupas e uma
aparência melhor.
– Você
planejou tudo isso, não é? – a moça perguntou para a vidente, apertando seus
dentes e se segurando para não atacá-la – Isso era parte de seu plano ou
maldição, não é mesmo?!
A velha pegou sua bolsa que o bêbado havia
deixado cair, e continuou sorrindo, com a mesma expressão em sua face.
– Eu não
tenho o poder de escrever o destino, criança. Eu apenas o vejo ser cumprido e
faço meu trabalho – ela explicou, começando a caminhar para fora do beco –
Espero que seu espírito possa se conformar e encontrar paz – foram as últimas
palavras que a velha disse para a mulher, antes de desaparecer nas sombras da
noite.
Depois de três meses, a moça sentia-se
esgotada. Além de perdeu seu grande amor, ela enfrentou uma série de
julgamentos e interrogatórios, enquanto a polícia procurava o culpado. Naquela
tarde, ela havia voltado da delegacia, sem resultados animadores. Era bem
provável que jamais capturassem o homem que havia matado seu noivo e nem mesmo
a velha pode ser localizada. Alguns já levantavam a hipótese da moça ter
enlouquecido com a morte de seu amado e inventado parte da história.
Seus olhos pareciam mais pesados do que o
normal, sua visão embaçava e seu corpo estava extremamente dolorido. Quando ela
estava a algumas quadras de casa, um dos cruzamentos se tornou fatal para seu
corpo fragilizado. Sem prestar a atenção, ela estava andando automaticamente,
enquanto sua mente se perdia em lembranças e em ilusões do rosto da senhora que
havia previsto seu futuro.
Quando a moça percebeu a caminhonete preta
se aproximando, já era tarde demais. Ela foi arremessada a metros de distância,
e seu corpo permaneceu estirado no chão, da mesma forma que o corpo do seu
noivo.
Todos que estavam na rua viram com pavor a
cena que aconteceu, se mobilizando para fazer algo. Um dos responsáveis pelo
acidente fez a mesma coisa.
Do carro saiu um homem com olhos avelã¹ e
cabelos pretos, com uma expressão alerta e angustiada. Ele se aproximou do
corpo da jovem, estirado no chão, com sangue saindo de uma abertura no topo de
sua cabeça. Apesar das circunstâncias, seu rosto quase sereno pareceu, de certa
forma, familiar para o rapaz. Inconscientemente, ele tocou sua face, quase
ternamente, então deslizou seus dedos até seu pescoço, procurando pulsação.
Nada.
Nos dias que se seguiram, ele deu todo o
apoio que pode para a família da mulher atropelada, assumindo as despesas com
seu enterro. Daquele modo, talvez, uma parte da culpa que ele sentia em seus
ombros seria extinta.
Durante o enterro, enquanto observava de
longe o caixão ser coberto de terra, o homem foi abordado por uma velha mulher,
extremamente pálida, sob a luz daquela tarde cinzenta, e toda vestida de preto,
com um simpático sorriso no rosto, fora daquele contexto melancólico.
– Não se
preocupe – ela disse para ele, apoiando uma mão em seu ombro – Você a
encontrará em outra vida. Eu cuidarei dela até lá.
Após dizer isso, a velha foi embora, sem
esperar qualquer reação por parte do homem. Dispersas gotas de chuva começaram a cair do
céu, molhando aos poucos as lápides cinzentas e a grama. Uma delas caiu no olho
do rapaz, embaçando sua visão e fazendo-o limpar seus olhos com as mãos.
Quando ele olhou novamente, a velha já
havia desaparecido, levando embora seu sorriso e espalhando a sensação da morte
por todo o local novamente.
¹Lembrando
que olhos cor de avelã tem uma coloração que muda de acordo com a iluminação
local, variando entre castanho e verde.
Obs: Ainda não arranjei um título decente para esse conto, quando eu encontrar um, irei editar essa postagem.
