Um espaço para auto-reflexão, mimimis adolescentes e falta do que fazer

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Lanterna dos Afogados

   

     Em uma floresta, perto de um lago, era possível encontrar uma alma aflita.  O jovem, que vagava por tal área, carregava insanas visões junto de si, buscando a paz que foi tirada de seu alcance há muito tempo.
     Era difícil enxergar mais de um metro á sua frente por causa da neblina que se espalhava por todo o local. O som de seus passos eram abafados pela lama e pelo lodo que cobriam o caminho até as margens do lago e o barulho dos insetos noturnos se sobrepunha a sua respiração.
     As lágrimas que desciam por sua face pareciam se fundir com a noite úmida. Os soluços que saiam de seu peito o sufocava aos poucos, tornando sua respiração mais difícil a cada passo.
     Quando ele finalmente enxergou um rastro de luz verde, alguns metros na sua frente, seu coração acelerou e uma série de lembranças tomou sua mente.
     Sua vida ainda estava no começo. Ele mal tinha vivido durante duas décadas e ainda assim carregava tal perturbação e instabilidade dentro de si, desde que tudo aconteceu. O pobre rapaz não tinha mais motivos e nem forças para viver. Tudo havia desabado desde a morte dela, desde aquela sombria noite de verão. Até esse momento, ele não havia pisado naquele lugar novamente, temendo ser assombrado pelos fantasmas daquele dia. Porém, o que ele mais temia estava deixando-o louco.
     Ambos tinham quinze anos, eram inocentes, inconsequentes e corajosos, procurando aventuras e desafios que apenas o vigor de sua juventude poderia superar. Tal sede pelo desconhecido os levou para aquele lago, onde acreditava-se que uma simples lanterna sugava a alma daqueles que desbravavam suas águas.
     Obviamente, no começo, ambos acharam a história estúpida, afinal, como poderia um simples objeto sugar a essência humana?
     Portando apenas lanternas e suas roupas de banho, os dois jovens foram até o lago, esperando vencer mais um desafio, ter seus egos inflados, sua sede por aventura saciada e sua noite preenchida com diversão nas águas negras do lugar.
     Ao chegarem no pequeno cais de madeira, eles notaram a presença da suposta lanterna, uma luz esverdeada no meio do lago, que parecia flutuar sobre a água, mas deveria estar em um mastro ou uma boia.
     Sendo exímios nadadores, nenhum deles viu qualquer problema em se arriscar em um local desconhecido, mesmo estando de noite. E, é claro, que em momento nenhum eles levaram em conta as antigas histórias sobre aquele parque abandonado.
     Tudo havia acontecido tão rápido que sua memória falhava em trazer de volta as imagens de como tudo tinha ocorrido. Talvez porque é impossível se lembrar de algo que você não tenha visto.
     De um momento para o outro, ela havia sido engolida pelo lago, seu corpo havia sido arrastado para suas profundezas, sendo encantado pela luz verde, e não houve maneira de salvá-la. Aquilo foi apenas um acidente, mas acidentes não perturbam pessoas daquela forma, ou perturbam?
     Seu riso estava por todos os lugares, seu toque o acariciava junto com o vento e sua voz ecoava em sua cabeça. Sua face o visitava todas as noites durante o sono, o chamando para seu encontro na lanterna dos afogados.
     Tudo isso havia destruído sua vida e o transformado em uma pessoa desprezível, que por algum milagre ainda sobrevivia em seu patético mundo. Sem qualquer razão para viver na loucura, ele finalmente decidiu atender ao chamado daquela que ele um dia amou.
     Ele sabia que a alma de sua namorada estava aprisionada naquele lugar, sofrendo com a sua morte precoce e procurando por uma luz pura. Assim, ele faria o que fosse possível para ajudá-la.
     Após ser guiado pela voz da garota em suas lembranças, ele chegou até as margens da água, finalmente podendo vê-la depois de tanto tempo.
     Como se esperasse por ele, lá estava a figura de sua amada, da mesma forma desde a última vez que ele a viu. Porém, para o desespero do rapaz, seu sorriso havia sido substituído por uma face triste, pálida e desgastada, levemente inchada por causa da água e com seus cabelos escorrendo de forma bizarra sobre seus ombros.
     Ele se sentia tão culpado por aquilo. Se não tivesse concordado com aquela idiotice juvenil, se ele tivesse tomado conta dela... Se eles jamais tivessem pisado naquele parque, ela ainda estaria junto com ele. Era doloroso vê-la daquela forma. Aquilo o perturbava mais do que qualquer alucinação que tenha tido nesses últimos cinco anos.
     Mesmo beirando a insanidade, ele sentia que era seu dever tentar libertar a alma da garota que morreu ali.
     Tomando coragem, ele encarou o triste espírito, tentando manter-se firme.
 O que é preciso para que você encontre paz?  ele perguntou, tremendo, contra sua vontade, por causa da presença pálida em sua frente.
     O rosto do fantasma de contorceu em uma mistura de felicidade e agonia. Aquela não era mais quem ele havia conhecido, mas sua voz permanecia a mesma.
 Ter você eternamente ao meu lado  respondeu o espírito de sua amada, estendendo sua mão.
     Atônito com o brilho levemente verde que o espírito da garota tinha, o rapaz começou a entrar no lago, preparando-se para abrir mão de tudo de uma vez por todas. Ele não podia pensar em mais nada além da luz que parecia sair de dentro do espírito.
     Assim, o jovem caminhou em direção à lanterna, afundando cada vez mais sob a luz esverdeada, responsável por absorver as almas daqueles que eram tolos o bastante em ver alguma beleza nela.



------------------------------------------------------------------------------------------------------------


Desde a primeira vez que ouvi o título e a letra dessa música, quando eu era pequena, algo soou terrivelmente assustador para mim. Por mais que o próprio Herbert Vianna já tenha explicado o significado da música, e ela tenha um andamento calmo, eu cheguei a ter sonhos, um pouco macabros, envolvendo a "Lanterna dos Afogados". Depois de muito tempo, finalmente resolvi escrever um conto baseado na música, com a minha visão da canção.
Eu tentei escrevê-lo baseado em estrofe por estrofe, acrescentando detalhes que caracterizem cada uma delas, mas não necessariamente na ordem da letra.

Para quem não a conhece, segue a letra logo abaixo:

Quando tá escuro
E ninguém te ouve
Quando chega a noite
E você pode chorar
Há uma luz no túnel
Dos desesperados
Há um cais de porto
Pra quem precisa chegar
Eu tô na lanterna dos afogados
Eu tô te esperando
Vê se não vai demorar
Uma noite longa
Pra uma vida curta
Mas já não me importa
Basta poder te ajudar
E são tantas marcas
Que já fazem parte
Do que eu sou agora
Mas ainda sei me virar
Eu tô na lanterna dos afogados
Eu tô te esperando
Vê se não vai demorar
Comentários
0 Comentários

0 comentários:

Postar um comentário

Tecnologia do Blogger.

© Pink Demon, AllRightsReserved.

Designed by ScreenWritersArena